Artista polémico, quase maldito, Belchior surgiu como poeta
repentista em feiras do Ceará, tendo sido posteriormente notado por nomes
maiores da MPB, como foi o caso, por exemplo, de Elis Regina, que dele chegou a
gravar, entre outros, o tema “Mucuripe”, dando-lhe, assim, algum destaque. Mas
foi, sobretudo, com o seu segundo LP que Belchior deixou para sempre a sua
marca na história musicada do Brasil. Alucinação é uma afirmação profunda e filosófica sobre a sua vida e o seu tempo. É, nessa
medida, tremendamente autobiográfico, e as letras / poemas das composições
presentes nesse disco de 1976 são o melhor exemplo de uma época difícil para os
brasileiros. A liberdade, quando falta, torna-se musa inspiradora, sendo que,
mesmo assim, só alguns conseguem torná-la vibrante e magnânima. Alucinação é um canto
à liberdade num momento em que o regime a cerceava, um grito sofrido e
revelador das dificuldades acrescidas de quem vive no sertão, longe dos centros
onde tudo acontece, e onde a vida é (ou parece ser) mais fácil e maravilhosa. É
isso que nos diz Belchior, logo na primeira faixa do álbum. Apresenta-se como
“Apenas Um Rapaz Latino-Americano”, e os primeiros versos cantados são
desarmantemente belos: “Eu sou apenas um rapaz Latino-Americano / Sem dinheiro
no banco, sem parentes importantes / E vindo do interior / Mas trago na cabeça
uma canção do rádio / Em que o antigo compositor baiano me dizia: / – Tudo é
divino. Tudo é maravilhoso!” A referência à composição “Divino, Maravilhoso”
(de Caetano e Gil), é tão explícita quanto reveladora da fragilidade das
certezas que, aparentemente, anuncia. Surge nos primeiros versos da primeira
canção do disco, como referi, e volta a estar presente, por exemplo, na canção
que o fecha, embora de forma mais velada, quando se afirma “Viver é que é o
grande perigo”, último verso de “Antes do Fim”.
O disco segue com “Velha Roupa Colorida” (mais uma letra e
canção de excelência), destacando-se as profundas expectativas de mudanças
sociais que o Brasil viveu nos anos 50 e 60, mas que na realidade não vieram a
cumprir-se, fruto de golpes de estado de âmbito militar, que fez com que
praticamente todo o continente sul americano viesse a padecer das politicas
opressoras nele impostas. Por isso, e na continuidade lógica do discurso (Alucinação, como já deve
ter percebido, é um disco político e de combate) surge “Como Nossos Pais” no
alinhamento das faixas do álbum. E volta a referência a “Divino, Maravilhoso”,
quando se canta “Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina!”, bem como
outra referência a uma outra conhecida canção, “Sinal Fechado”, de Paulinho da
Viola, surgida em 1970. “Eles venceram e o sinal está fechado pra nós / que
somos jovens”, canta Belchior. No entanto, na cabeça do artista há uma
resolução há muito tomada, e da qual nada o demoverá: “Sempre desobedecer /
Nunca reverenciar”, cantada em “Como O Diabo Gosta”. Na lucidez de quem sofre e
não desiste, mesmo que o futuro projetado seja negro e pouco apetecível, o
canto de Belchior revela-se profético e humanista. Em “Alucinação”, canção
título poderosíssima, os versos finais voltam a ser assertivos e frontais: “Mas
eu não estou interessado em nenhuma teoria / Em nenhuma fantasia, nem no algo
mais / Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia / Amar e mudar
as coisas me interessa mais”. Os jovens, agora oprimidos (refiro-me a 1976),
não desarmarão, nem se afastarão do país que amam. Fica essa certeza. Aliás, a
canção “Não Leve Flores” anuncia que é ainda cedo para os malfeitores poderem
cantar vitória, e que esses mesmos jovens saberão sempre estar no lado certo da
trincheira. “A Palo Seco”, oitava canção de Alucinação, é o melhor exemplo do melhor Belchior! Amada por futuras
gerações de músicos, como é o caso de Los Hermanos, por exemplo, mas também
cantada por Oswaldo Montenegro, “A Palo Seco”, repito, é uma extraordinária
canção, belíssima, poderosa, cortante, e sucesso maior da carreira de Belchior,
sempre tão pouco reconhecida. Já em “Fotografia Em 3×4”, na qual refere o nome
de Fernando Pessoa, nova piscadela de olho a Caetano Veloso, desta vez
modificando o verso da sua canção manifesto “Alegria, Alegria”, adaptando-o à
dura realidade de quem sofreu o impacto de viver nas grandes cidades: “Veloso,
o sol (não) é tão bonito pra quem vem / Do Norte e vai viver na rua”,
identificando-se, no entanto e mesmo assim, com a história do baiano e com a de
todos os jovens que tentaram a vida nos grandes aglomerados citadinos. “Antes
Do Fim” termina o disco com uma mensagem bonita e comovente, salientando, à
laia de pedido, “Que fiquem sempre jovens / E tenham as mãos limpas / E
aprendam o delírio com coisas reais”.
Para além da
óbvia qualidade poética e musical de Alucinação (o disco é mesmo muito bom, e
viciante), o cunho politico do álbum salienta a sua intemporalidade, e os
tempos que correm tornam atual a sua mensagem. Eu tenho por Alucinação um amor
profundo e eterno. Também o tenho por Belchior, que vale mesmo a pena conhecer.
Ouçam-no, ouçam os seus discos, aproveito e agradeço ao Nelson (meu irmão) por
um dia tê-lo me apresentado.





