sábado, 27 de janeiro de 2018

Belchior - O bel

Artista polémico, quase maldito, Belchior surgiu como poeta repentista em feiras do Ceará, tendo sido posteriormente notado por nomes maiores da MPB, como foi o caso, por exemplo, de Elis Regina, que dele chegou a gravar, entre outros, o tema “Mucuripe”, dando-lhe, assim, algum destaque. Mas foi, sobretudo, com o seu segundo LP que Belchior deixou para sempre a sua marca na história musicada do Brasil. Alucinação é uma afirmação profunda e filosófica  sobre a sua vida e o seu tempo. É, nessa medida, tremendamente autobiográfico, e as letras / poemas das composições presentes nesse disco de 1976 são o melhor exemplo de uma época difícil para os brasileiros. A liberdade, quando falta, torna-se musa inspiradora, sendo que, mesmo assim, só alguns conseguem torná-la vibrante e magnânima. Alucinação é um canto à liberdade num momento em que o regime a cerceava, um grito sofrido e revelador das dificuldades acrescidas de quem vive no sertão, longe dos centros onde tudo acontece, e onde a vida é (ou parece ser) mais fácil e maravilhosa. É isso que nos diz Belchior, logo na primeira faixa do álbum. Apresenta-se como “Apenas Um Rapaz Latino-Americano”, e os primeiros versos cantados são desarmantemente belos: “Eu sou apenas um rapaz Latino-Americano / Sem dinheiro no banco, sem parentes importantes / E vindo do interior / Mas trago na cabeça uma canção do rádio / Em que o antigo compositor baiano me dizia: / – Tudo é divino. Tudo é maravilhoso!” A referência à composição “Divino, Maravilhoso” (de Caetano e Gil), é tão explícita quanto reveladora da fragilidade das certezas que, aparentemente, anuncia. Surge nos primeiros versos da primeira canção do disco, como referi, e volta a estar presente, por exemplo, na canção que o fecha, embora de forma mais velada, quando se afirma “Viver é que é o grande perigo”, último verso de “Antes do Fim”.
O disco segue com “Velha Roupa Colorida” (mais uma letra e canção de excelência), destacando-se as profundas expectativas de mudanças sociais que o Brasil viveu nos anos 50 e 60, mas que na realidade não vieram a cumprir-se, fruto de golpes de estado de âmbito militar, que fez com que praticamente todo o continente sul americano viesse a padecer das politicas opressoras nele impostas. Por isso, e na continuidade lógica do discurso (Alucinação, como já deve ter percebido, é um disco político e de combate) surge “Como Nossos Pais” no alinhamento das faixas do álbum. E volta a referência a “Divino, Maravilhoso”, quando se canta “Por isso cuidado, meu bem, há perigo na esquina!”, bem como outra referência a uma outra conhecida canção, “Sinal Fechado”, de Paulinho da Viola, surgida em 1970. “Eles venceram e o sinal está fechado pra nós / que somos jovens”, canta Belchior. No entanto, na cabeça do artista há uma resolução há muito tomada, e da qual nada o demoverá: “Sempre desobedecer / Nunca reverenciar”, cantada em “Como O Diabo Gosta”. Na lucidez de quem sofre e não desiste, mesmo que o futuro projetado seja negro e pouco apetecível, o canto de Belchior revela-se profético e humanista. Em “Alucinação”, canção título poderosíssima, os versos finais voltam a ser assertivos e frontais: “Mas eu não estou interessado em nenhuma teoria / Em nenhuma fantasia, nem no algo mais / Longe o profeta do terror que a laranja mecânica anuncia / Amar e mudar as coisas me interessa mais”. Os jovens, agora oprimidos (refiro-me a 1976), não desarmarão, nem se afastarão do país que amam. Fica essa certeza. Aliás, a canção “Não Leve Flores” anuncia que é ainda cedo para os malfeitores poderem cantar vitória, e que esses mesmos jovens saberão sempre estar no lado certo da trincheira. “A Palo Seco”, oitava canção de Alucinação, é o melhor exemplo do melhor Belchior! Amada por futuras gerações de músicos, como é o caso de Los Hermanos, por exemplo, mas também cantada por Oswaldo Montenegro, “A Palo Seco”, repito, é uma extraordinária canção, belíssima, poderosa, cortante, e sucesso maior da carreira de Belchior, sempre tão pouco reconhecida. Já em “Fotografia Em 3×4”, na qual refere o nome de Fernando Pessoa, nova piscadela de olho a Caetano Veloso, desta vez modificando o verso da sua canção manifesto “Alegria, Alegria”, adaptando-o à dura realidade de quem sofreu o impacto de viver nas grandes cidades: “Veloso, o sol (não) é tão bonito pra quem vem / Do Norte e vai viver na rua”, identificando-se, no entanto e mesmo assim, com a história do baiano e com a de todos os jovens que tentaram a vida nos grandes aglomerados citadinos. “Antes Do Fim” termina o disco com uma mensagem bonita e comovente, salientando, à laia de pedido, “Que fiquem sempre jovens / E tenham as mãos limpas / E aprendam o delírio com coisas reais”.
Para além da óbvia qualidade poética e musical de Alucinação (o disco é mesmo muito bom, e viciante), o cunho politico do álbum salienta a sua intemporalidade, e os tempos que correm tornam atual a sua mensagem. Eu tenho por Alucinação um amor profundo e eterno. Também o tenho por Belchior, que vale mesmo a pena conhecer. Ouçam-no, ouçam os seus discos, aproveito e agradeço ao Nelson (meu irmão) por um dia tê-lo me apresentado.


terça-feira, 22 de outubro de 2013


NO SILÊNCIO DA MÚSICA


Andando apressado pelas ruas hoje
Preocupado com o Horário não determinado por mim
Para cumprir obrigações que também não são minhas
Embora me contratem para me responsabilizar por algumas responsabilidades alheias
Com o fone no ouvido, fui surpreendido pelo fim da bateria do meu celular

Me faltou a música e sobrou ansiedade

Resolvido os problemas e cumprido os prazos

Pensei em tanta coisa no pequeno trecho entre o banco e minha casa

O amor também amadurece

E por ser maduro não deixa de ser carne, menos libido
Mas nos faz atento a detalhes

Hoje não quero a satisfação de ser abrigado
Mas quero para ela ser o urgente e calmo abrigo

terça-feira, 21 de maio de 2013

INCUMBÊNCIA


Não sei por quantas vidas
Seguiremos completando nossas existências,
mas sei que em vidas idas você, comigo,
vivemos sob a mesma regência

Nossa missão até ser completa
Pode precisar de muitos anos
Que não canso, persevero
Ajeitando com você a vida
E nosso compromisso sempre reitero

E celebro cada momento, como que eterno
Cada gesto, mesmo mínimo, deixam marcas indeléveis
E a todos eles, atenciosamente, observo.
Foi tão bonito você me oferecer seu caderno

sábado, 13 de abril de 2013

Angulo


















Impar
Singular
Único

SOZINHO

Impar
Singular
Único

DIFERENTE

Impar
Singular
Único

EXÓTICO

Diferente
Exótico 
Sozinho

ÚNICO

Exótico
Diferente
Sozinho

IMPAR

Sozinho
Exótico
Diferente

EU
ou
VOCÊ

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Escrevendo, escondendo


Quando escrevo e alguém gosta
Penso se gostou do ajuntamento das palavras
Ou do pensamento contido
Prefiro que gostem da segunda opção
Assim penso que começo a ser redimido

Ser compreendido é o que busco
Mas se desperto outras coisas
Quando lido, fico feliz
Não foi inútil o tempo gasto
Com o escrito

Não escrevo com a constância
De alguns amigos,
Escrevo pouco, talvez
Para me manter escondido

Quero e abdico!

A Rua, o Nicollau e o Mundo


Morei, até 2002, em uma casa na Santa Cruz, em um pequena rua sem saída.
No final de 2011 meu filho Nicollau foi até àquela rua visitar um amigo.
Perguntou-me se eu tinha certeza que moramos naquela rua mesmo.
Ele a achou muito pequena, em suas lembranças a rua era enorme.
Era sua visão infantil.

Todos já tivemos surpresas assim.

Eu já tenho lembranças do tempo em que eu era mais forte.
Quando eu peitava esse mundo injusto,
Quando cria que minha revolta iria contagiar tanta gente
Que mudaríamos o mundo.
Era minha visão juvenil.

Passei parte da minha vida nesta luta.
E a cada dia percebi mais de que modo era feito o mundo
E quanto mais informado, mais indignação.

Não mudei muito, ainda fico indignado todos os dias
Percebo até mais as sutis explorações dos "homens"
É minha visão mais madura.

Hoje quero que o meu mundo seja pequeno como aquela rua
Assim fica mais possível a administração dele.
Poderei enfeitá-lo com músicas, letras e amigos...
E deixar de lado um pouco as coisas que não conseguimos mudar
Mas que ainda incomodam bastante

Nem ligo mais se disserem que deserdei
Faço minhas escolhas à partir do que gosto
Não mais do que me atormenta a existência.

Uma alienação voluntária e consciente.

Desejo que este mundo seja enorme como a Rua do Nicollau.

Mas aceito conversar.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Mas, Heim?

















De que valem os olhos?
Não enxergam a essência
Olhos cegos que olham
Obscurecidos pela consciência

Que me perdoe os sãos
Aos loucos faço reverencias
Eu desprovido da razão
Enxergo com minha eloqüência

Entender-me é para os tolos
Mente em eterna contradição
Sou louco, louco como poucos
Ninguém oferece compreensão

De Dionísio herdo o exagero
De seu coração extraio a fuga
Entorpeço a vida sem esmero
À consciência, só resta a culpa.